domingo, 26 de dezembro de 2010

Já ouviu falar do Neno? Di Função

Já ouviu falar do Neno? - Di Função

O Neno era sem pai, a mãe que te sustenta.
Sofredora, mas não se lamenta.
Trabalha em casa de família para não passar fome.
O Neno era pivete, hoje tá um homem. Então...

Capão Redondo, só cara de chão.
Num barraco de madeira entre o esgoto e o lixão.
Extremo sul, distante da cidade.
Ali mora o descaso, a realidade.

A maioria preto e nordestino...
...em São Paulo, sem destino.
Criado na rua e sem direito a nada,
Neno, mais um moleque da quebrada.

Oitenta e sete, me lembro bem,
sua mãe desesperada vendo o filho na FEBEM.
Parou com a escola, se viciou...
...resolveu sair de casa, o que adiantou?

O Neno tá crescendo,
sua mãe segue lutando,
as coisas tão difícil,
dinheiro tá faltando,

Ele olha a sua volta
e a revolta só agrava,
sentimento de culpa
o Neno acumulava.

Sem dignidade,
sem estrutura,
doze de idade
enfrentando a vida dura,
viveu na pele,
passou vários 'veneno',

...já ouviu falar do Neno?

Os 18 chegou,
ganhou maioridade.
Filho criado sem pai
em meio às dificuldades.

A sua mãe serve a Deus numa igreja cristã,
e o Neno no crime cheirando até de manhã.

A vida deu a ele valores desiguais,
a sua dor não era filme, os corpos são reais.
Capão Redondo, 3 da madrugada,
moleque é metralhado, tá morto na calçada.

Era o retrato da rua, assim como é.
Finado Quinho, neguinho do Jardim Imbé.
Fiquei sabendo que uns caras tavam na sua bota,
um justiceiro sangue-ruim, ex-polícia da ROTA.

Desacreditadão tava o Neno, rapaz.
Só pra cima e pra baixo, de Suzuki, no gás.
Criminoso quer IBOPE, quer mostrar que tá bem,
até chegar o DEPATRI e tomar tudo o que tem.

E por aí o Neno vai, empolgado no sucesso.
".40" e Glock é fácil acesso.
Seu mundo agora é esse aí,
não tinha mais jeito.
Um caminho sem volta,
o que tá feito tá feito.

E por aqui o Neno é rei, é o herói da molecada,
mas tem covarde na maldade armando cilada.
A inveja é uma merda. Mas tá valendo...

...já ouviu falar do Neno?

Aliadão de um mano lá, um tal de Davi.
Disse pra mim que é sangue-bom, até então nunca vi.
De vez em quando ele cola numa sete galo-preto,
é correria no dinheiro, se adianta numas treta.

Ele é um cara firmão que se deu sempre bem,
ouro no pescoço à custa de alguém.
Tem fama de patrão, sai com várias mina.
Negócio lucrativo, boca de cocaína.

Tá pela ordem, né? O Neno é o gerente,
toma conta da favela e abastece os cliente.
Dinheiro fácil é fácil, vai fácil também.
Soldado do tráfico morto cito mais de cem.

Talvez fosse pro Neno sua última opção,
será que o esforço da sua mãe foi em vão?
Repara só nos pivete quando o pai é ausente:
sem dinheiro, a mesma merda, Natal sem presente.

Infância infeliz, futuro duvidoso.
Nascem, morrem num ciclo vicioso.
O Neno agora leva uma, tem dinheiro pra gastar:
festa, vagabunda, roupa de marca e pá.

Veja só, olha só como é o destino,
foi te empurrando pro crime no desbaratino.
Morrer dessa forma? Não, não. Não tô podendo...

...já ouviu falar do Neno?

O Neno tá pedido, fugido da quebrada.
Ripou um pilantra na semana passada.
O boato rolando e o seu nome envolvido:
"Traficante da sul deixa outro estendido".

É mau pro Neno, só resta uma saída:
sair fora do crime e a passagem de ida.
Mas não, ele insiste, quer viver nesse drama.
Desavenças deixa quieto, o problema é a grana.

O futuro é indiferente, já não importa mais.
Envolvido até o pescoço, agora é tarde demais.
Jurado de morte na mão dos gambé,
abandono dos comparsa, sei lá qual que é!

Destacado dos rolê dos amigos de infância,
pressentindo algo mau, o Neno vive à distância.
Armado, ligeiro com quem se aproxima,
se liga só naquele Tempra que virou a esquina.

Subindo, tá vindo na sua direção,
com três maluco dentro. - "Aí, Neno, sei não..."
Ele tentou reagir, não dava mais pra correr.
Depois de vários que matou, chegou sua vez de morrer.

Vinte e poucos anos se acabaram assim,
morto a tiros de pistola, pro Neno era o fim.

Vai vendo... já ouviu falar do Neno?

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Morra de inveja: Argentina enfrenta o PiG e os torturadores

Inveja dos argentinos

do Blog da Cidadania, por Eduardo Guimarães

Imagine poder discutir o semi monopólio da Globo com o motorista de taxi, com o porteiro do prédio, com a faxineira ou mesmo com um colega de trabalho. Ou ouvir até de empresários que realmente não é aceitável que um único grupo empresarial detenha metade da audiência da televisão aberta e o segundo jornal e a segunda revista semanal de maior tiragem.

De domingo –  quando cheguei a Buenos Aires – até agora, não ouvi uma só pessoa responder que a “Ley de Medios” é um despropósito. A sociedade argentina está convencida de que é preciso democratizar a comunicação. E o que é melhor: as pessoas sabem o que é democratizar a comunicação.

Claro que esse pode ser um fenômeno dos centros urbanos. Contudo, tente, em São Paulo, no Rio, em Belo Horizonte, em Curitiba, em Porto Alegre, em Salvador ou em Recife, entre outros, discutir o oligopólio das comunicações. A quase totalidade das pessoas não lhe dará atenção por mais do que alguns segundos antes de mudar de assunto ou de inventar uma desculpa para interromper a conversa.

Note-se que não me refiro aos politizados – sejam de direita ou de esquerda, que, no Brasil, são raros. Refiro-me a essa maioria que pode conversar por horas sobre futebol ou sobre novelas, mas que não tem paciência de gastar cinco minutos com política.

O Brasil é uma ilha de alienação em meio a uma América Latina significativamente politizada. Venho batendo nesta tecla há muito tempo devido à minha atividade profissional, que me obriga a viajar pela região.

O que estou vendo na Argentina é ainda mais interessante do que vi em países como a Venezuela, por exemplo – país em que o mais humilde cidadão é capaz de discutir a constituição do país e a política partidária.

A grande diferença do Brasil continua sendo a nossa histórica bonomia em relação ao jogo do poder e a nossa aversão a conflitos de qualquer tipo, mesmo quando o conflito é inevitável e necessário.

Ciente da natureza de seu povo, Lula desperdiçou os últimos oito anos no que diz respeito à democratização da comunicação. Apenas no fim de seu segundo mandato é que ousou convocar uma conferência para discutir o assunto. Mas acabou relativizando sua importância quando a mídia começou com o mesmo trololó sobre “censura” que o grupo Clarín, aqui na Argentina, recita para as paredes.

O discurso do PIG argentino sobre supostos ímpetos censores do governo é exatamente o mesmo que o do PIG tupiniquim. Mas neste país é um discurso já quase envergonhado e que está morrendo a cada dia.

O grupo Clarín, a bem da verdade, tem um monopólio ainda maior do que o da Globo – alguma coisa perto de 80% do bolo da comunicação. Mas terá que se desfazer desse império. Será pago condignamente pelo que vender, mas não poderá manter o controle sobre tantas mídias e muito menos conseguirá vender seus meios de comunicação para testas-de-ferro.

Os dois governos Kirchner conseguiram explicar perfeitamente à sociedade os malefícios da concentração de meios de comunicação. A sociedade quer a diversidade de opiniões e de opções. É irreversível.

Enquanto esse sonho dourado dos democratas se materializa por aqui, no Brasil estamos completamente alheios ao que está acontecendo neste país. Deveríamos estar discutindo intensamente o processo em curso na Argentina. Ao menos na blogosfera. Mas a discussão ainda é insipiente. Não estamos avançando nesse debate.

Diga, leitor, uma só proposta concreta para acabar com o oligopólio nas comunicações no Brasil. Nem  um órgão para normatizar as comunicações conseguimos discutir nacionalmente. Globo, Folha, Estadão e Veja conseguiram interditar o debate porque o governo teme meramente tocar no assunto.

E o pior é que temos condições muito melhores para propor essa discussão. Não temos os problemas que têm os argentinos na economia, por exemplo, e o apoio popular ao governo brasileiro é muito maior do que ao governo argentino.

Aliás, nada que seja polêmico nós conseguimos discutir. Os crimes da ditadura, por exemplo. Os criminosos do regime militar argentino estão sendo julgados e até presos. Enquanto isso, os criminosos que torturaram e assassinaram pouco mais do que crianças durante a nossa ditadura zombam de suas vítimas e ainda se dão ao desfrute de fazer ataques a elas.

Os argentinos estão nos goleando sem parar no que diz respeito à democratização real de seu país. Que inveja.

—–

Da sua natureza [brasileira]

De Luis Fernando Veríssimo

Sorte nossa que as árvores não gemam e os animais não falem. Imagine se cada vez que se aproximasse uma motosserra as árvores começassem a gritar “Ai, ai, ai!” e aos bois não faltassem argumentos razoáveis para não querer entrar no matadouro.

Imagine porcos parlamentando em causa própria, galinhas bem articuladas reivindicando sua participação na renda dos ovos e gritando slogans contra o hábito bárbaro de comê-las, pássaros engaiolados fazendo discursos inflados pela liberdade.

Os únicos bichos que falam são os papagaios, mas até hoje não se tem notícia de um que defendesse os direitos dos outros. O papagaio tem voz, mas não tem consciência de classe.

A vida humana seria difícil se não pudéssemos colher uma beterraba sem ouvir as lamentações da sua família e insultos do resto da horta. Não deixaríamos de comer, claro. Nem beterrabas, nem bois ou galinhas, apesar dos seus protestos.

Mas o remorso, e uma correta noção da prepotência inerente à condição da espécie dominante, faria parte da nossa dieta. Teríamos uma idéia mais exata da nossa crueldade indispensável, sem a qual não viveríamos.

Sorte nossa que os vegetais e os animais não têm nem uma linguagem, quanto mais um discurso organizado. Não os comeríamos com a mesma empáfia se tivessem. O único consolo deles é que também padecemos da falta de comunicação: ainda não encontramos um jeito de negociar com os germes, convencer os vírus a nos pouparem com retórica e dar remorso em epidemias.

Eu às vezes fico pensando como seria se os brasileiros falassem. Se protestassem contra o que lhes fazem, se fizessem discursos indignados em todas as filas de matadouros, se cobrassem com veemência uma participação em tudo o que produzem para enriquecer os outros, reagissem a todas as mentiras que lhes dizem, reclamassem tudo que lhes foi negado e sonegado e se negassem a continuar sendo devorados, rotineiramente, em silêncio.

Não é da sua natureza, eu sei, só estou especulando. Ainda seriam dominados por quem domina a linguagem e, além de tudo, sabe que fala mais alto o que nem boca tem, o dinheiro. Mas pelo menos não os comeriam com a mesma empáfia